segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

INDIVÍDUOS OU NAÇÕES? (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Indivíduos Ou Nações?


E o que fazer com o verso "Amei Jacó, odiei Esaú" (Rm 9:13 citando Ml 1:2,3)? Novamente, a fonte da citação revela claramente que são as nações as referenciadas, e não os indivíduos Jacó e Esaú. O ponto da comparação é a natureza da terra que fora dada às duas nações. Deus deu preferência a Jacó na terra que Ele entregou a Israel. Malaquias passa a discutir o fato que Edom chegou sob o julgamento de tal forma que ela jamais seria capaz de reconstruir sua terra; mas esta foi uma conclusão premeditada desde antes de Jacó e Esaú nascerem? Não parece ser este o caso. Deuteronômio 2:4-6 sugere na verdade o oposto disto. Deus não permitiu aos israelitas atacar Edom ou tomar qualquer parte de sua terra, afirmando que "Eu tenho dado a Esaú as colinas de Seir como sua possessão. Vocês os pagarão em prata pela comida e água que consumirem". Isto dificilmente seria consistente com um povo "odiado por Deus".

É mais provável que "amar" e "odiar" em Malaquias 1 e Romanos 9 devem ser tomados meramente em termos de preferência, bem como a afirmativa de Jesus em Lucas 14:26:
Se alguém vier a mim, e não odiar seu pai, e mãe, e esposa, e filhos, e irmãos, e irmãs, sim, e sua própria vida também, ele não pode ser meu discípulo.{Lucas 14:26 King James}

Ninguém seria capaz de imaginar que Jesus realmente esteja chamando seus discípulos a odiar seus familiares em termos absolutos, mas meramente escolher a Ele em preferência de seus familiares. Deus simplesmente preferiu Jacó a Esaú, tanto em termos da terra recebida pelos seus respectivos descendentes, quanto em termos da linha de sucessão da nação da aliança.

Se alguém quiser argumentar que "Amei Jacó e odiei Esaú" se deve a eleição para salvação, este deve lidar com o fato de que a primeira vez que esta citação é feita, não é em Gênesis, mas em Malaquias. O ponto de Deus não deve ser que todo o Israel dos tempos de Malaquias havia sido salvo! De fato, Deus acusara Israel pelo resto de Malaquias especificamente porque eles estavam sendo infiéis à aliança e arruinaram a fé em Deus de muitas maneiras. Em vez de ser uma agradável garantia do favor de Deus, a assertiva "Amei Jacó mas odiei Esaú" é parte da acusação de Deus – que ainda que Deus tenha favorecido Israel, não obstante Israel vinha sendo infiel, e estava portanto sob julgamento.

Paulo usa estas citações em Romanos 9 outra vez para se opor aos judeus que poderiam dizer que se o Evangelho de Paulo estivesse correto então "a Palavra de Deus falhou" (Rm 9:6). Sua resposta a estes é que Deus jamais fez promessas incondicionais, baseadas em "obras" ou etnia, que eles poderiam reivindicar. Deus soberanamente escolheu Isaque em vez de Ismael, e soberanamente escolheu Jacó a Esaú; e portanto, Ele pode soberanamente escolher na base da fé em Cristo, em oposição a obras da Lei ou etnia.

Para o hipotético interlocutor judeu, é claro, a aparente mudança de Deus (de Lei e etnia para fé como critério de eleição) aparentemente seria injusto (Rm 9:14). Note, a propósito, que a presente interpretação do argumento de Paulo faz todo o sentido para a sensação de injustiça do interlocutor hipotético. Nenhum judeu veria injustiça na eleição gratuita de Isaque em vez de Ismael ou de Jacó em vez de Esaú como indivíduos. A única coisa acerca do argumento que os faria ver Deus como injusto é que "nem todos os descendentes de Israel são Israel" (Rm 9:6), e para Paulo, é claro, que era um descendente verdadeiro de Abraão a segui-lo pela fé (Rm 4:11-12, Gl 3:7-8).

JACÓ E ESAÚ (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Jacó e Esaú


Para o caso de o dito interlocutor judeu hipotético argumente que Isaque era o filho legítimo em oposição a Ismael, filho da escrava, Paulo desce mais um nível na árvore genealógica para encontrar um exemplo mais convincente, o de Jacó e Esaú (Rm 9:10-13). Eles têm os mesmos pais biológicos, e até mesmo nasceram ao mesmo tempo como gêmeos. A única primazia natural que um teria um teria sobre o outro seria o direito de nascimento, que acabou por ser de Esaú. Mesmo assim, antes de eles nascerem, foi dito a Rebeca que "o mais velho serviria o mais moço" (Rm 9:12 citando Gn 25:23). Paulo chega a afirmar que a razão de Deus ter dito a Rebeca foi "a fim de o propósito divino acerca da eleição ficasse firme" (Rm 9:11). Certamente esta é uma clara referência a uma eleição individual incondicional.

Muitos arminianos escolhem neste ponto inserir o pré-conhecimento de Deus como chave para entender esta passagem; isto é, apesar de ter sido "antes que os gêmeos fizessem qualquer coisa boa ou má" (Rm 9:11), Deus ainda os julgaria com base do que Ele saberia que eles fariam futuramente. Isto claramente vai contra a intenção da passagem. Paulo certamente exclui o mérito pessoal da consideração da eleição de Jacó e Esaú. Tal eleição "não foi por obras, mas pelo que chama". Deus era perfeitamente livre para escolher entre Jacó e Esaú, e escolheu Jacó livremente.

Porém, novamente, a escolha não envolve eleição individual para salvação ou danação, mas sim a linhagem pela qual os filhos da aliança viriam. Gênesis 25:23, de onde Paulo cita, claramente se refere a nações, não indivíduos:
E o SENHOR disse a ela, Duas nações há em seu ventre, e dois tipos de povos sairão de suas entranhas; e um povo será mais forte que o outro; e o mais velho servirá o mais moço. {Genesis 25:23 King James}

ISAQUE E JACÓ (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Isaque e Jacó


Em Romanos 9:7, Paulo cita Gn 21:12 para explicar que, mesmo antes de Isaque nascer, Deus havia determinado que a descendência de Abraão seria "contada" a partir de Isaque – em outras palavras, o povo da aliança passaria pela linhagem de Isaque em vez da de Ismael. O contexto original da passagem, incidentalmente, deixa claro que não apenas Isaque seria escolhido, mas que Ismael seria rejeitado em favor de Isaque. Ainda, Deus deixa claro que Ismael seria rejeitado por Abraão, tal que a linha de sucessão da aliança é claramente por Isaque; não obstante, Ele assegura a Abraão no verso seguinte (Gn 21:13) que "do filho da serva farei também grande nação, porque ele é sua descendência". Nos versos seguintes lemos que "Deus ouviu o garoto [Ismael] chorando... 'Dele farei grade nação'... Deus estava com o garoto enquanto ele crescia" (Gn 21:17-20). Em outras palavras, Deus tinha um plano positivo para Ismael e seus descendentes, bem como para Isaque e seus descendentes; é apenas em relação a ser membro da nação da aliança que Ismael fora rejeitado.

Paulo, significativamente, interpreta a citação como significando que "não são os filhos naturais os filhos de Deus, mas os filhos da promessa que são contados como descendência de Abraão" (Rm 9:8). Ele sutilmente faz aqui o que fica mais evidente em Gálatas 4:21-23: ele identifica o Israel étnico com os filhos de Agar, em oposição aos de Sara. Desde que o Israel étnico dependia da descendência natural de Abraão, eles eram análogos a Ismael, que fora descendente de Abraão (sem mencionar a primogenitura) de forma puramente natural. Os cristãos, confiando que "aqueles que creem são filhos de Abraão" (Gl 3:7), são análogos a Isaque, o filho da promessa. Em Romanos 9:8, Paulo cita Gênesis 18:10,14 para estabelecer que a promessa de fato ocorrera antes da concepção de Isaque.

O uso de Isaque e Ismael por Paulo, então, não tem como intenção ser uma afirmação sobre sua eleição eterna individual, nem ser um caso típico de eleição e reprovação. Ele de fato estabelece que o povo judeu não tem razão alguma em confiar na descendência de Abraão para garantir sua inclusão na aliança. Se eles pudessem, os descendentes de Ismael teriam tanto direito a reivindicar as promessas de Deus quanto os descendentes de Isaque.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

INTRODUÇÃO (Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva)

Introdução


Romanos 9 é geralmente citado como um dos mais claros exemplos escriturísticos na doutrina reformada da eleição individual: ela discute a escolha soberana de Deus de Isaque em preferência a Ismael e Jacó em vez de Esaú, sem levar em conta qualquer mérito do escolhido ou demérito dos não escolhidos. Depois é contra-atacado ser a objeção arminiana que a eleição incondicional parece injusta para nosso senso humano de justiça, e usa-se Faraó como exemplo de alguém que Deus 'levantou' para o expresso propósito de tornar-se uma demonstração do poder de Deus. Deus suporta com muita paciência esses 'objetos de ira' a fim de glorificar-se ante aos 'objetos de sua misericórdia', ou seja, os eleitos (veja Agostinho, "To Prosper and Hilary" 14; Calvino, Institutes 3.22.4-6).

Eu afirmaria que esta interpretação ignora o contexto maior de Romanos 9-11, cujo tema principal é lutar com as implicações do Evangelho para a nação de Israel. Ele também ignora os contextos das citações de Paulo do Antigo Testamento, que quando vistos sob uma perspectiva correta, lançam uma luz diferente nos argumentos de Paulo. Paulo está lutando contra o fato de que Deus tenha feito certas promessas nas Escrituras concernentes a Israel, muitas das quais ele vê como cumpridas em e por intermédio de Jesus Cristo. Porém Israel como um todo não veio a Cristo. O que isto significa para Israel, para a veracidade da Escritura, e para o Evangelho de Paulo? Estas questões dominam a mente de Paulo em Romanos 9-11, e suas assertivas sobre eleição devem ser analisadas em termos destas questões.

Romanos 9:1 faz uma clara ruptura com o que vinha acontecendo antes, e ainda os capítulos que se seguem são intimamente relacionados com os que o precedem. Paulo tem demonstrado em Romanos 1-8 a queda da humanidade (tanto judeus como gentios), justificação não por "obras da lei" (ergon nomou, Rm 3:20) mas sim pela "fé em Jesus Cristo" (pisteos Iesou Christou, Rm 3:22), Abraão como um exemplo de justificação pela fé, e as implicações práticas da justificação pela fé. O argumento teórico de Paulo é de fato bem envolvido no final do capítulo 8, exceto por estabelecer a relação entre sua doutrina de justificação pela fé em Cristo e o relacionamento histórico que Deus tem tido com o Israel étnico. Ainda que Paulo represente a justificação pela fé não como novidade mas como algo que começara com Abraão, isto não responde a questão de por que Deus havia relacionado a seu povo Israel primariamente na base de sua descendência por Abraão e de sua guarda da Lei. A Escritura deixa claro que os israelitas se viam a si mesmos como relacionando-se com Deus na base destas duas coisas (descendência de Abraão: Gn 26:24, Dt 4:37, Mt 3:9, Lc 1:72-74; mantendo a Lei: Ex 20:6; Lv 26:3; 1Rs 9:4-5; Ne 1:9; Dn 9:4; Mt 19:17; At 15:5). O povo judeu, que não estava vindo em grande número a Cristo, poderia muito bem argumentar que se a doutrina de Paulo sobre a justificação pela fé fosse verdade, então Deus essencialmente quebrara Suas promessas com Israel. Se Israel vê a inclusão na aliança como baseada na descendência de Abraão e na manutenção da Lei, então como Deus poderia voltar atrás e dizer "não, inclusão na aliança não é baseada em descendência de Abraão nem em manter a Lei, mas sim na fé em Cristo"? Parece-lhes que a Palavra de Deus havia falhado (Rm 6), que é o que Paulo se esforça na disputa em Romanos 9-11.

Em resumo, o argumento de Paulo se inicia atacando as duas hipóteses que haviam sido feitas sobre o relacionamento de Deus para o Seu povo. A linha de argumentação de Romanos 9-11 tem por finalidade responder à acusação específica de que, se o Evangelho de Paulo fosse verdadeiro então a Palavra de Deus haveria falhado acerca de Israel. Muito da interpretação tradicional desta passagem parece manter essa ênfase em mente apenas em uns poucos versos, mas de fato esta acusação é a posição primária contra a qual Paulo está escrevendo ao longo destes três capítulos. É a posição essencial do "interlocutor hipotético" que Paulo invoca em Rm 9:19-20, e é implicada em uma série de outros versos (por exemplo, Rm 9:6,16,32). No capítulo 3, Paulo já havia demolido a possível objeção de que os judeus podem confiar na guarda da Lei; porém, os judeus poderiam ainda confiar na descendência de Abraão como indicativo de sua inclusão na comunidade da aliança. Após isto tudo, as promessas do Antigo Testamento relacionadas à restauração de Israel não estão subordinadas à perfeita guarda da Lei; em alguns casos, aparenta que a adesão à Lei é na verdade uma das promessas a serem cumpridas (p.ex. Jr 31:33). Então se Paulo afirma que a justificação é pela fé em Cristo, e se este padrão acaba por excluir a maioria dos judeus, os que não vieram à fé em Cristo, então parece que as promessas de Deus a Israel são vazias.

A resposta de Paulo é simplesmente para demonstrar que Deus nunca escolheu descendentes em Abraão, meramente por descendência física, para inclusão na comunidade da aliança. Isto é claro porque nem todos os descendentes de Abraão foram incluídos, mas apenas os descendentes de Isaque e depois os de Jacó. Em outras palavras, o "atrito" (se nos for permitido chamar assim) que ocorre entre as gerações de Isaque e Jacó não para aqui, mas continua através descendentes de Israel. É neste sentido que "nem todos os descendentes de Israel são Israel" (Rm 9:6)

domingo, 29 de janeiro de 2017

Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva (INDEX)

Romanos 9: Uma Leitura Arminiana Sob a Nova Perspectiva

  • Introdução
  • Isaque e Jacó
  • Jacó e Esaú
  • Indivíduos ou Nações?
  • Faraó
  • O Oleiro e o Barro
  • Objetos de Ira e de Misericórdia
  • Conclusão

META
Título Original Romans 9: An Arminian/New Perspective Reading
Autor Keith Schooley
Link Original http://evangelicalarminians.org/romans-9-an-arminiannew-perspective-reading/
Link Arquivado http://archive.today/ajINZ

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A Nova Perspectiva e Efésios

A Nova Perspectiva e Efésios


A Nova Perspectiva em Paulo é geralmente associada a uma reinterpretação de Romanos e Gálatas, na medida em que estes dois livros têm sido mais intimamente associados à Velha Perspectiva e à tradicional interpretação protestante de justificação sendo derivada dessas duas epístolas. Porém, a interpretação tradicional (em especial a reformada) em Efésios 1 e 2 deveria também ser reexaminada à luz da Nova Perspectiva.

A mensagem do Evangelho, disponível a qualquer um que crê, foi uma ameaça direta à posição especial que Israel tinha detivera como povo escolhido. De acordo com a Nova Perspectiva, esta oposição à completa inclusão dos gentios foi o maior assunto, apesar de não dirigido contra a oposição judaica ou judaizante, mas escrita para os crentes gentios a fim de assegurá-los da sua completa inclusão com os crentes judeus na Nova Aliança. Efésios 2:11-3:21, que forma o coração do livro, são bastante explícitos acerca dessa questão: o "mistério de Cristo", que é "os gentios são conjuntamente herdeiros, membros de um mesmo corpo, e participantes da sua promessa em Cristo por meio do evangelho" {Ef 3:4-6}. Porém, na interpretação reformada tradicional, os capítulos 1 e 2 são lidos como se não tivessem nada a ver com a questão judeu-gentio, e em vez disso são lidos como se fossem um tratado sobre eleição individual.

Quem é "nós" e quem é "vós"?


A chave para entender Ef 1-2 é identificar quem Paulo quer dizer por "nós" e por "vós" e "nos". Por exemplo, quando ele afirma "nos escolheu ... nos predestinou" {Ef 1:4,5}, o que exatamente constitui "nos"? Como o contexto define "nos"? Quais são as características definidoras do grupo de pessoas a qual Paulo se refere?

No primeiro verso da epístola, Paulo designa seus leitores como pistois en Christo Iesou, "fiéis em Cristo Jesus". No restante de suas epístolas, Paulo só aborda seus leitores como pistois uma outra vez, em Colossenses. Esta designação, então, tem significância especial para os leitores de Efésios. A proeminente regra de fé nos versos subsequentes destaca o fato que a designação de Paulo tinha a intenção de emoldurar a auto-percepção de seus leitores.

Em conexão com "havendo sido predestinados" no verso 11, paulo identifica "nós" nos versos 11 e 12 com "os que primeiro esperamos em Cristo". No verso 13, ele identifica "vós" como tendo sido incluídos em Cristo "depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e nele crestes". Ele refere no verso 15 à "fé que há entre vós", no verso 19 como "nós, que cremos", e estabelece em 2:8 que "sois salvos por meio da fé". Baseado nos versos acima, uma característica definidora de ambos "vós" e "nos" ao longo da passagem claramente aparenta ser que eles são crentes e têm fé.

Vós gentios e nós judeus


No verso 2:11, "vós" é mais explicitamente identificado como "gentios na carne, e chamados de não-circuncidados pelos que se chamam participantes da circuncisão na carne, feita por mãos humanas". É provável que virtualmente todos os leitores de Paulo fossem gentios, então este verso define ainda mais o "vós". A identificação de Paulo com "nós" como os primeiros a esperar em Cristo em 1:12 agora faz mais sentido: a primeira geração de cristãos, incluindo o próprio Paulo, era de judeus crentes; portanto, onde "nós" é contrastado com "vós", Paulo está referindo-se aos crentes judeus. (Quando não contrastado com o "vós", Paulo pode estar referindo-se ou aos crentes judeus ou crentes judeus e gentios considerados como um todo.) Isto conecta a parte anterior da epístola tematicamente com a seção central, o ponto principal disto sendo a união dos judeus e gentios em um corpo {Ef 2:16, 3:6}.

Tomando este entendimento de volta nas passagens lidando com a eleição ajuda a compreender melhor o intento de Paulo. Em 1:4-5 Paulo discute como Deus nos escolhe e nos predestina; aqui, ele está escrevendo dos judeus e gentios considerados conjuntamente. Ele está incluindo os gentios na eleição que Israel já entendia como se a tivessem. Seu ponto é que os gentios não são um arranjo posterior no plano de Deus; eles foram escolhidos antes da fundação do mundo {Ef 1:4} prenuncia 3:6: o "todas as coisas" que estão sendo reunidas sob uma cabeça são os crentes judeus e gentios.

Os versos de 11 a 14 começam a fazer distinção entre "nós' e "vós". O "nós" do verso 11 que foram predestinados são definidos no verso 12 como os primeiros a esperar em Cristo; i.e. Paulo agora quer dizer por "nós" a primeira geração de crentes, que eram majoritariamente judeus. Então "também vós [crentes gentios] depois que ouvistes a palavra da verdade, nele fostes selados". Paulo está dizendo que assim como nós judeus que cremos fomos escolhidos e predestinados de acordo com o plano de Deus, da mesma forma vós gentios fostes inclusos no mesmo plano. Os gentios são completamente incluídos no plano que Deus tinha desde o início.

No início do capítulo 2, Paulo prossegue a comparação: assim como "vós estáveis mortos em ofensas e pecados", mesmo assim "todos nós antes andávamos nos desejos de nossa carne ... éramos filhos da ira por natureza, assim como também os demais" {Ef 2:3}. Os judeus, assim como os gentios, estavam dantes alienados de Deus - o mesmo ponto que ele faz em Fl 2:15-16, e reitera explicitamente acerca dos gentios em 2:12-13.

Em razão da ênfase individualística da Velha Perspectiva, Ef 1:1-2:10 tem sido interpretada como uma exposição da eleição incondicional individual, depravação total, e regeneração anterior à justificação. Entender o papel da questão judeu-gentio leva a uma diferente concepção da mensagem de Paulo aqui - uma que alcança os crentes gentios e assegura-lhes que eles são tão fundamentalmente uma parte da eleição e plano de Deus quanto Israel o foi no Antigo Testamento. Apesar de este entendimento ainda ser possível de se encaixar na moldura reformada, ele não requer o entendimento reformado da eleição incondicional individual. Crentes gentios estão sendo reassegurados que eles são tão "escolhidos" quanto os crentes judeus foram - porque a escolha de Deus não é baseada em se são judeus ou gentios, mas em vez disso na fé em Cristo como único critério necessário.

META
Título Original The New Perspective and Ephesians
Autor Keith Schooley
Link Original http://evangelicalarminians.org/the-new-perspective-and-ephesians/
Link Arquivado http://archive.today/ZNTve

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A Nova Perspectiva e o Desenvolvimento da Doutrina Reformada

A Nova Perspectiva e o Desenvolvimento da Doutrina Reformada


A Nova Perspectiva em Paulo é um desenvolvimento que tomou lugar nas últimas décadas em estudos bíblicos, acerca do pano de fundo e contexto contra o qual o Novo Testamento, e os escritos do Apóstolo Paulo em particular, deveriam ser interpretados. Ela tem-se tornado controversa recentemente, mas é majoritariamente atacada com base nas implicações que ela pode ter para a doutrina reformada, não sobre a solidez dos estudos bíblicos que a criaram. A maioria dos estudiosos bíblicos reconhece a legitimidade de pelo menos alguns aspectos da Nova Perspectiva, e mesmo uma modesta aceitação da Nova Perspectiva pode iluminar por que a doutrina de Lutero, Calvino e os reformadores tomou a forma que tem.

O que aconteceu, em resumo, foi isso: tanto Agostinho em seus dias quanto os reformadores nos seus dias estavam respondendo a desafios (Pelágio e a igreja católica medieval, respectivamente) que minavam a necessidade da graça de Deus na salvação humana. Pelágio mantinha que era possível, ao menos em princípio, para qualquer ser humano viver inteiramente sem pecado e portanto sem necessitar do perdão de Deus e da obra expiatória de Cristo. A igreja católica medieval construpira um sistemna de obras meritórias pelo qual a pessoa podia obter salvação; penitência e indulgências eram meramente parte desse sistema. O que Lutero pensou ter encontrado nos escritos do Apóstolo Paulo, em especial em Romanos e Gálatas, foi um argumento inspirado e vigoroso contra precisamente estes desafios. Paulo argumenta estridentemente que a justificação é pela fé e não por "obras da lei" (Rm 3:28; Gl 2:16; 3:2,5). Lutero e os reformadores depois dele aplicaram o termo "obras da lei" a qualquer sistema legal pelo qual a pessoa pudesse porventura merecer salvação. Eles liam nos escritos de Paulo suas próprias lutas com um sistema legalista, e dese modo porderam o que a Nova Perspectiva vê como a real luta que Paulo estava lidando: a resistência dos judeus à completa inclusão dos gentios como povo da aliança de Deus. Desde que a igreja estava há muito tempo sendo predominantemente gentia, este aspecto do argumento de Paulo era fácil de esquecer. Onde Paulo estava preocupado com evangelizar os gentios sem requerer deles a observância à Torah (i.e. às "obras da lei"), os nreformadores estavam preocupados em estabelecer um relacionamento entre o crente e Deus baseado inteiramente na graça de Deus sem qualquer "obra" contribuinte do fim humano afinal.

Tendo começado nessa direção, ambos Agostinho e os reformadores estavam preocupados em eliminar a possibilidade de qualquer espécie de sincretismo - isto é, de qualquer ação humana que pudesse contribuir para a salvação da pessoa. Eventualmente, eles concluíram que mesmo o exercício da fé não poderia trazer uma pessoa à comunidade da aliança, sob pena de tal exercício ser considerado uma "obra" na qual o indivíduo pudesse "gloriar-se". (Isto, não obstante o fato que Jesus não via problema em construir fé como "obra": Jo 6:27-29). Certamente, a fé foi aclamada como o meio pelo qual o indivíduo apropriava-se da salvação feita pela graça de Deus; mas a fé só podia ser exercida por alguém que tivesse sido escolhido pela eleição incondicional de Deus, e inevitavelmente seria exercida uma vez que Deus regenerou o descrete e aplicou-lhe graça irresistível; em outras palavras, fé era algo como subproduto do processo de eleição.

Apenas para deixar claro, não estou dizendo que os reformadores estavam errados em reconhecer e enfatizar a asserção de Paulo que a justificação é pela graça mediante fé. Porém, Paulo não trata esta asserção como algo novo - ela é pelo menos tão antiga quanto Abraão. O que a Nova Perspectiva faz é reabrir nossos olhos para as reais questões dentro do judaísmo do primeiro século para as quais Paulo estava respondendo, o que por sua vez nos permite reexaminar as passagens que têm sido historicamente tratadas como cruciais à doutrina reformada.

META
Título Original The New Perspective and the Development of Reformed Doctrine
Autor Keith Schooley
Link Original http://evangelicalarminians.org/the-new-perspective-and-the-development-of-reformed-doctrine/
Link Arquivado http://archive.today/4Qesr